Vivendo do passado, no bom sentido

Depois que comecei a escrever, os fatos corriqueiros do dia a dia se tornaram mais especiais do que nunca. Um verdadeiro mundão inesgotável de inspiração!

Estava no supermercado esses dias. Passando no caixa, a senhora que me atendia comentou: “_ Olha que barulho delicioso de escutar o dia todo!”. Percebi que ela referia-se ao som de uma britadeira quebrando a parede, dentro do supermercado e próximo ao seu caixa. Logo respondi, achando que havia captado a ironia: “_ Nossa, é verdade, que alegria!” (brincando, certo?). Errado. Eis que, a senhora vem com a tréplica: “_ Sabe o que eu mais gosto desse barulho? A sensação de renovação que ele traz, vai ficar tudo novinho depois dessa reforma, parece que a gente evolui, que delícia!”

Senti vontade de rir de mim mesma. Senti vontade, ao mesmo tempo, de abraçá-la pela visão tão positiva da situação. Mas, o que a fez pensar desta maneira? Quais as condições que determinam se uma pessoa vai incomodar-se com o barulhão da britadeira porque ele desfoca sua atenção ou maravilhar-se com o mesmo porque este permite que ela se sinta renovada?

As condições que determinam uma ou outra postura diante do mundo vêm da história de vida de cada um. Trata-se do conjunto de contingências (situações) a que fomos submetidos desde o nascimento e que englobam os ambientes, as relações, as experiências que tivemos durante o crescimento. Como se pode notar, o famoso livre-arbítrio está limitado por esta história que, interfere de maneira marcante em nossas escolhas e ações.

 A senhora lá do supermercado, de alguma maneira aprendeu durante a vida a significar o barulhão de construção como algo reforçador, benéfico. Isto hoje, de maneira indireta, está determinando até que ela trabalhe mais satisfeita que provavelmente a colega do caixa ao lado, que aprendeu que o barulho irrita e desconcentra.

Olhe aonde podemos chegar! Como uma aprendizagem pode influenciar em incontáveis outras situações!

A história de vida determina padrões, tendências de comportamento, ficamos mais dispostos a agir desta ou daquela maneira. O importante de conhecer estas ligações está em conscientizar-se de onde vêm as disposições e, o quanto elas continuam funcionando bem ao longo da vida. Se a gente entende nosso passado, podemos enxergar a necessidade de mudar o que em nosso presente não serve mais. Podemos também detectar as emoções que não fazem bem e como minimizá-las.

Já perceberam como repetimos maneiras de agir, sistematicamente? Por que nos apaixonamos sempre pelo cara errado ou a cada novo emprego arrumamos encrenca com alguém, ou até, por que nunca pensamos em mudar de emprego? Acomodação? Burrice? Não. Padrão, tendência a seguir o fluxo que, começou em algum lugar lá atrás. O resgate deste fluxo permite entendermos nossos modos e manias. Não deixemos formar cristais brutos, vamos lapidá-los e transformá-los.

Muitos dizem que não devemos viver de passado, mas, o processo de aprender a viver diz que não podemos viver sem ele, porque somos seu fruto. Cabe sim a nós, através de conhecer as estradas já percorridas, modificar o roteiro dos próximos caminhos e, porque não, aposentar velhos carros e suas histórias.

Nos vemos logo!

 

 flavia bertuzzo

 

Flávia de Tullio Bertuzzo Villalobos é Psicóloga formada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e especialista em Psicologia Clínica Comportamental pela Universidade de São Paulo.

Psicoterapeuta comportamental há 15 anos em consultório privado e, desde 2011, psicóloga do Ambulatório de Saúde Ocupacional da 3M do Brasil.

Minha grande busca é transpor os limites do consultório, viver e aprender a psicologia em outras fronteiras, levar a ajuda e receber o aprendizado.  Email: fbvpsicologa@gmail.com