Trabalho & Felicidade

Uma grande parte das pessoas que está em terapia e, as que não estão também, em algum momento ou em muitos, questionam, reclamam, amaldiçoam seus trabalhos.

“_ Por que é que eu não ganho na loto?”

“_ Por que meu trabalho paga tão pouco?”

“_ Se eu ficasse milionário, jogava tudo para o alto e dava uma ‘banana’ pra todos no escritório!”

Vamos começar assim: O que será que verdadeiramente incomoda as pessoas? Trabalhar (fazer o que sabe, o que se preparou, o que escolheu) ou, TER QUE ganhar dinheiro com o que sabe, com o que se preparou, com o que escolheu?

Tudo bem se falarmos que, a escolha do trabalho muitas vezes não acontece em termos absolutos como disse acima. Nem sempre podemos escolher ou sabemos de nossas capacidades para desenvolver uma atividade com a qual realmente nos identificamos. Mas, mesmo considerando esta circunstância como algo determinante e altamente desmotivador do trabalhar, creio que há algo mais presente, que encerra a tarefa nossa de todos os dias, na categoria das coisas-dificilmente-amadas-sem-distinção: a obrigatoriedade.

A obrigatoriedade transforma o trabalho, mesmo se algo muito prazeroso e bem escolhido, em, inevitavelmente, uma circunstância coercitiva. Você tem que trabalhar todos os dias e seu sustento e talvez o de outras pessoas, depende dessa sistemática que não pode falhar.

O ser humano como espécie sempre teve dificuldades em encarar a restrição, a liberdade tolhida. O prazer, que é a busca genuína e, depois polida de qualquer homem, está ligado com a naturalidade, com a vontade sem determinação. O trabalho pode conter vontade, mas sem determinação, não! Ele exige a determinação de parâmetros que, não tem jeito, desvirtua a originalidade do prazer!

É claro que, estamos falando do trabalho para a maioria das pessoas. Tem sempre aquele estraga-prazer que atinge o nirvana, que foge da regra e institui o conflito da exceção. Têm aqueles que trabalham por absoluto prazer e gosto, conseguem ganhar dinheiro ou não e são da turma mais predileta do universo.

Brincadeiras a parte, a boa notícia é (essa frase é do meu marido, adoro quando ele diz isso) que, tendo consciência desta limitação quase que onipresente do trabalhar, podemos direcionar nossas expectativas para ambições que sejam possíveis e que podem trazer muitas realizações e alegria nessa vida.

A felicidade está no ajuste da expectativa com a possibilidade, no cruzamento da boa escolha com oportunidade cavada. Se esperarmos amor absoluto pelo trabalho, se acharmos que os dias sem vontade ou questionamentos não deveriam estar ali, já condenamos um caminho de vida inteira a ser pesado e lamacento.  

Dizia Marx que “o trabalho não é a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio para satisfazer outras necessidades”.  Sorry Marx, mas acho que são as duas coisas!

 

 flavia bertuzzo

 

Flávia de Tullio Bertuzzo Villalobos é Psicóloga formada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e especialista em Psicologia Clínica Comportamental pela Universidade de São Paulo.

Psicoterapeuta comportamental há 15 anos em consultório privado e, desde 2011, psicóloga do Ambulatório

de Saúde Ocupacional da 3M do Brasil.

Minha grande busca é transpor os limites do consultório, viver e aprender a psicologia em outras fronteiras, levar a ajuda e receber o aprendizado.  Email: fbvpsicologa@gmail.com