Histórias de fim de ano

Todo fim de ano, quando chegava pertinho da virada, me percebia sempre com um aperto no coração.Pra dizer bem a verdade, ao longo do dia 31 pairava no ar, no meu ar, essa tristezinha. Descobri depois de muito tempo de angústia inconsciente que na verdade não gosto de comemorar a entrada no novo ano. Isso acontece porque tenho uma espécie de sensação de injustiça em relação a este evento.

“Como assim, depois de árduos 300 e tantos dias de trabalho, construção, dedicação, relação com as pessoas, o ano acaba e começa tudo de novo?”

Fico com a sensação de “ué”. Fico saudosa do que arquitetei o ano todo. Parece que o ano vira e a contabilização das realizações, das experiências vividas zera de novo. Além disso, me parece que o tempo com as pessoas amadas fica encerrado dentro de uma ampulheta, esvaindo-se um pouco mais, ao findar cada ano.

Bem sei que se trata de uma sensação, que nossas construções ultrapassam os limites imaginários do tempo contado e avançam em direção à posteridade, se bem alimentadas e cuidadas, claro. Mas achei curioso descobrir isso em mim depois de me sentir entristecida durante várias passagens em praias, fora do país, em casa. Não importava aonde fosse e com quantas ou quais pessoas estivesse, aquela sensibilidade n’alma sempre dava o ar da graça.

Agora que entendi, fico tranqüila. Não tenho mais necessidade de adorar o ano novo, já não planejo muito a data porque não tenho muito a oferecer a ela.

 Já o Natal me fascina!

Conto os dias, enfeito tudo e todos a minha volta. Acho uma delícia perpetuar o mágico dessa data. Sempre tivemos Natais muito felizes em família, aconchegantes, com aqueles rituais de enfeitar presentes e rabanadas com café no dia 24. A idéia central do Natal é espiritualista, o que motiva uma atmosfera de reunião, doação. Presentear no Natal faz bem ao coração porque enfatiza esse clima de compaixão (vamos aqui salvaguardar os excessos cometidos pelo super consumismo nesta data, ok? Vamos fingir um pouquinho que isso não existe para não quebrar a essência). O clima não é de encerramento, mas sim de nascimento, continuação.

E é assim que me permito despedir de vocês este ano, no último texto de 2013 desta coluna, perguntando: o que você gostaria de continuar em 2014?

Coisas novas a gente quer aos montes, mas, será que sabemos avaliar o que manter em nossas vidas? Procure na sua se há algo sendo forçado a ficar, mantido sem pensar e o pior, sem funcionar mais. Será que você, como eu, não ficaria mais livre se assumisse não gostar do ano novo ou confessando não querer mais cozinhar todo domingo para a família? O difícil é compreender e em seguida aceitar, depois fica fácil, mamão com açúcar.

É isso que eu desejo a você: descoberta.

Não do novo.

Do antigo.

Aliás, re-descoberta.

Neste ano, passarei a virada voando de volta ao Brasil depois de uma viagem de dez dias. Escolhi mesmo passar o reveillon no avião por dois motivos principais: fica mais barato (mas isso não seria tão importante se não houvesse a segunda razão) e gostei da ideia de confrontar sensações.

Término (do ano) e trânsito. Fim e caminho. Acabar e percorrer.

Vamos ver no que dá. Não tenho grandes pretensões, só a de fazer uma boa e feliz viagem.

Um doce e alegre Natal a você e aos seus (amados)! Até janeiro de 2014.

  

 flavia bertuzzo

Flávia de Tullio Bertuzzo Villalobos

Psicóloga formada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e especialista em Psicologia Clínica Comportamental pela Universidade de São Paulo.

Psicoterapeuta comportamental há 15 anos em consultório privado e, desde 2011, psicóloga do Ambulatório de Saúde Ocupacional da 3M do Brasil.

Minha grande busca é transpor os limites do consultório, viver e aprender a psicologia em outras fronteiras, levar a ajuda e receber o aprendizado.  Email: fbvpsicologa@gmail.com