Hawaí

 hawai


Depois de três anos morando em Dublin, na Irlanda, retornei ao Brasil em Dezembro 2008. Logo na primeira semana, fui convidado para participar do Ironman 70.3 Hawaii. Seria o meu primeiro triathlon e eu tinha cerca de 5 meses para me preparar para a prova. Naquele momento, nem pensei duas vezes, aceitei na hora o convite. Seria a realização de um sonho. Eu já tinha corrido 6 maratonas e tinha uma boa base de ciclismo e natação. A oportunidade de participar de um half ironman (1,9 km de natação, 90 km de ciclismo e 21 km de corrida), percorrendo trechos da lendária prova havaiana, me motivou ainda mais e o desafio se transformou numa grande curtição. 

O Henry Abreu (amigo) prontamente me liberou uma bike e assim comecei a preparação. Acordava as 7 h e treinava até as 9 h, fazendo giros de 45 min de bike e 50 min de corrida. Consegui levar esse treinamento durante os 4 meses que residi em Itatiba, interior paulista. Mas devido a mudanças na minha vida profissional, fui para Campinas (SP) e abandonei os treinos completamente. Sem bike, e numa fase de transição, comecei a me dedicar 100% as artes. Meu objetivo era organizar uma exposição, a fim de divulgar o meu trabalho e aperfeiçoar a técnica de giz-pastel sobre papel. 

Pintei 20 quadros em 1 mês, insane. Consegui a expo no Espaço Cultural Casa do Lago, localizado dentro do Campus da Unicamp, mas até 3 dias antes do evento não sabia mais se faria a prova. Não me sentia preparado. Não tinha bike, o Henry havia abandonado completamente a idéia, também por falta de treinos, e tudo parecia estar indo por água abaixo. Pra falar a verdade, eu já havia até desistido de correr. Na pior hipótese, como não seria possível cancelar o ticket, talvez vá apenas para cobrir a prova, pensei. 

Acontece que uma amiga (Monique Nakano), que havíamos convidado, estava determinada a correr. Também seria o seu primeiro triathlon. Dois dias antes do embarque ela me ligou dizendo que o lugar era lindo e queria saber se eu iria ou não. Como num estalo, pesquisei na internet e encontrei uma loja de bike em Kona, cidade base do evento, em Big Island. Já estava muito em cima da hora e fui realista: vou correr, nem que seja com uma mountain bike, caso não ache a bike adequada, apenas para curtir aquela oportunidade. Naquela altura do campeonato, medidas extremas, até mesmo hilárias, seriam necessárias e justificadas. 

Comprei uns dólares, peguei um busão para SP e embarquei destino ao Hawaii, sem saber ao certo o que iria acontecer. Só sabia que a Monique estava lá e uma amiga dela, também brasileira (Daniele Pedro), iria se juntar a nós. O time estava formado: um maratonista (F), uma corredora de aventura (M) e uma triatleta (D), estreando numa prova complexa, num dos lugares mais inóspitos para uma competição de longa distância, devido ao forte calor e alta umidade. A falta de experiência nesse tipo de prova poderia, literalmente, arruinar os nossos planos. 

No último trecho da viagem, entre Honolulu e Kona, conheci o Giovanni Caldas, experiente triatleta que já havia corrido o Ironman Hawaii em duas ocasiões. Ele não acreditava quando eu disse que estava lá para fazer a prova e não tinha equipamentos, nem mesmo a bike. Certamente ele pensou: “maluco ou sem noção esse cara”. Nos tornamos amigos e comemoramos com cerveja local, enquanto esperávamos pela Monique e pela Dani no hotel oficial. A prova aconteceria no sábado. 

No dia seguinte, quinta-feira, fomos até a loja para ver se os caras iriam conseguir uma bike pro figura brasileiro. Fui prontamente atendido e jogaram uma Specialized Allez na minha mão. Nem foi preciso ajustar o banco. Da mesma forma que peguei a bike, iria pedalar os 90 km. Demos um giro de 45 min naquela tarde e pronto. 

Na sexta, ainda atordoado pelas longas horas de vôo e 7 horas de fuso horário, o Giovanni apareceu na casa que havíamos alugado me convidando para um pedal até Hapuna Beach, onde seria a largada e etapa de natação. Eu deveria estar descansando, mas pra quem estava há 1 mês e meio sem treinar, não sei se faria muita diferença treinar ou relaxar os músculos por mais algumas horas. Foi o tempo de ir até Hapuna e voltar para carregar as bikes, e seguir pro briefing e outros compromissos (retirar o numeral, organizar as sacolas que deveriam ser deixadas na transição, etc). A prova começava naquele momento. Fizemos tudo, mas o dia foi corrido. E eu ainda tropecei numa pedra, machucando o dedão do pé! Descansei apenas 4:30 h naquela noite, mas estava cheio de energia quando o dia amanheceu. 

Eu sabia que não poderia forçar o ritmo. Dali pra frente, era só curtição e muita concentração. No momento da largada estávamos juntos, apenas o Giovanni havia se posicionado no meio da multidão, aproximadamente 1200 atletas, devido ao seu ritmo forte na água. Não demorou muito para a gente se espalhar. Agora era cada um por si. 

Optei por nadar mais aberto, fora do pelotão, para evitar os chutes e braçadas. A água em Hapuna é tão cristalina que fui o tempo todo curtindo os peixes e corais. Ritmo lento, mas constante. Tipo um treino, assim foi a minha natação. Sai da água em 44 min e perdi longos 12 min na transição. Como eu não tinha sapatilha, enfiei o tênis no pé e lá fui eu, feliz da vida. Sabia que o pedal seria cansativo e eu não tinha compromisso com tempo. Minha meta era completar a prova. Ainda tive contato visual com a Dani e depois vi a Monique nos primeiros km do ciclismo. Haja pernas e o sol castigando. 

O pedal até Havi, pela lendária Queen Ka’ahumanu Highway, cruza campos de lava, com algumas possibilidades de se avistar o mar, mas o cenário é desolador. A medida que o tempo passava, a temperatura e a umidade do ar aumentavam gradativamente. 

Lembro quando o pelotão dos líderes passou, eu ainda estava longe do retorno em Havi. O jeito era relaxar e curtir aquele momento único. Foi isso que fiz. Afinal, eu tinha conseguido a bike e sabia que a última perna do ciclismo seria mais tranqüila, com longos trechos em descida. Mas ainda precisávamos economizar pernas para a corrida. Vento atrapalhando. Ainda cruzei a Monique, ela estava cansada e tinha uma jornada solitária pela frente. 

Fiquei feliz de terminar o ciclismo, a posição no clip (guidão) estava machucando os meus ombros. Levei pouco mais de 3:30 h para percorrer os 90 km. Dessa vez não perdi tanto tempo na transição, mas fiz tudo com calma. O diretor de prova havia avisado no briefing que o novo percurso da corrida seria infernal e realmente foi! Corremos os 21 km atravessando um campo de golf, cheio de subidas e descidas, alternando trechos de asfalto, grama e zig-zags nos cart paths, ao redor do belo The Fairmont Orchid Resort. 

Confesso que foi um dos percursos mais bonitos, mas também mais difíceis que já corri. A solução era hidratar sempre e muito gelo na cabeça, sob o boné. Até na barriga, por dentro do macaquinho Speedo-zero-bala, que comprei na expo, colocava os ice cubes. Corri bem, quero dizer, confortável, já que a corrida é a minha modalidade favorita. O jeito foi caminhar por alguns metros, após cada posto de hidratação. Algo que eu não faço nas maratonas, mas aquilo lá era um inferno, estamos falando de um half ironman em Kona, sem contar meu precário treinamento. Lembro de beber muita Coca-Cola, já estava até viciando. Saia com 3 copos: Coca, gelo e água. Correr como? 

A parte mais difícil pra mim, e também algumas pessoas que conversei, foi o trecho que apelidamos de “caldeirão”. Um retão-escaldante-sem-fim, levemente em declive. Dava tristeza só de pensar que teríamos que voltar tudo aquilo, e subindo! Nem preciso dizer que sombra não existia. O objetivo é desafiar o limite dos atletas, isn’t it? Com essa corridinha malandra, mesclando trote e caminhada nos postos de hidratação, completei os 21 km em 2:30 h e cruzei a linha de chegada com 7:14 h. 

Sem duvida, foi uma experiência incrível. Fiquei emocionado quando coloquei a medalha de finisher no peito. Aquilo significava muito mais que superar todas aquelas dificuldades e imprevistos pré-viagem. Terminar aquela prova, naquela ilha, foi a realização de um sonho. 

Fiquei lá, sentado, acompanhando a chegada dos últimos atletas. O tempo limite para completar a prova são 8:30 h. Passada essa hora, fui até a área de transição para retirar a minha bike. Pra minha surpresa, encontrei a Monique. Ela havia sofrido muito na natação e no ciclismo, e decidiu parar antes da corrida. A Dani guerreira já estava em casa, completou em 6:30 h, e o Giovanni já descansava no hotel após completar a prova em 5:00 h. Animal. 

Conversando, depois de tudo isso, a Monique confessou que nunca havia entrado no mar!? Achei meio estranho, mas ela disse: “fui a última a sair da água, com 1:15 h. Nadei os 1,9 km de costas, porque estava enjoando, escoltada pelos caiaques de apoio da organização, que me indicavam o caminho”. Com isso, seu pedal foi comprometido. “Estava exausta e estressada”, explicou. 

Esse é o espírito do Ironman. Mesmo que tenha sido apenas a metade (Half Ironman), o evento exigiu muito empenho dos atletas, cada um superando seus limites, enfrentando seus medos e receios. O que leva uma pessoa que tem pavor de água a se inscrever numa prova como o 70.3 Hawaii? Monique, 45 kg, ganhou não só o meu respeito, como também a minha medalha.

Todos os atletas estão de parabéns. Mais uma vez aprendi uma grande lição. Não julgue as pessoas pela sua idade, tamanho ou condição física. Vi atletas de todos os tipos em Kona. Estar lá já significava muito. Eles acreditaram que seriam capazes e se dedicaram bravamente durante os treinos para largar em Hapuna Beach. Assim são as provas de longa distância, cheias de surpresas e desafios. Assim tem sido a minha vida. O esporte é o caminho. Novos amigos, sonhos, objetivos. Não importa qual seja a sua meta, go for it! 

Em tempo, o cara que conheci na bike shop, Ivan Cielo, se tornou brother. Apaixonado pelo Brasil, mora no Hawaii desde os 2 anos de idade e conhece Big Island como ninguém. Passei os últimos três dias na casa dele. Até no vulcão eu fui parar, depois de um trekking maravilhoso, altas praias, american barbecue, acampamento na floresta tropical. Nada mal para quem não sabia se largaria na prova. Boas recordações do Hawaii. Eu faria tudo de novo. Aloha. 

Vídeo com algumas fotos: 

 

 fernando fragoso

Fernando Fragoso  - Estudou jornalismo na PUC-Campinas e trabalhou como repórter fotográfico e editor de site. Especializado em esportes e viagens. Em seu currículo tem mais de 100 competições e 22 países visitados. Atualmente, tem se dedicado aos desenhos e ilustrações, além de dar aulas de inglês no Cambuí. Contato: info@fernandofragoso.com