Por Tibeti Caviglioni Daniel*
Basta subir a foto de um ambiente vazio e, em poucos segundos, receber sugestões prontas de decoração, cores, móveis e composições visuais. Será que a inteligência artificial já é capaz de assinar, sozinha, um bom projeto de design de interiores?
A pergunta faz sentido porque a resposta rápida e visualmente sedutora que a IA entrega mudou a forma como muita gente começa a pensar um ambiente. De residências a empreendimentos corporativos, ferramentas de inteligência artificial já são usadas para gerar, quase instantaneamente, propostas de layout, paletas de cores e composições de mobiliário a partir de uma simples fotografia do espaço.
Para quem vive do universo da arquitetura e do design, essa tecnologia trouxe ganhos reais. Ela acelera a etapa inicial de um projeto, ajuda o cliente a visualizar possibilidades antes mesmo de tomar decisões, facilita a comunicação entre arquiteto e contratante e amplia o repertório visual disponível para inspiração. Onde antes era preciso folhear catálogos e revistas, hoje é possível testar dezenas de composições em minutos.
Esse ganho de velocidade é valioso. Mas é justamente aqui que mora o alerta: rapidez e beleza na tela não garantem, sozinhas, um projeto bem-sucedido.
O primeiro ponto de atenção é a ergonomia. Uma sugestão gerada por inteligência artificial parte de padrões visuais e estéticos, não do corpo de quem vai, de fato, usar aquele espaço. Altura de assento, profundidade de poltronas, distância entre mesa e cadeira, fluxo de circulação, acessibilidade: tudo isso exige conhecimento técnico e experiência prática, algo que nenhuma imagem gerada automaticamente consegue avaliar.
O segundo cuidado está nos materiais e acabamentos. A IA não sabe como um determinado tecido se comporta em um ambiente externo exposto ao sol e à chuva, não conhece a resistência de um alumínio tratado para o clima brasileiro, tampouco entende o peso, a textura ou a durabilidade real de cada material. Essas decisões nascem da experiência de quem já viu o resultado de um projeto anos depois de entregue, não de um banco de imagens.
O terceiro, e talvez o mais delicado, é a identidade. As ferramentas de inteligência artificial tendem a repetir padrões estéticos que já circulam amplamente pela internet, o que gera ambientes bonitos, mas parecidos entre si. O risco é claro: perder a cultura, a história e a essência de quem é o dono daquele espaço, seja uma família, uma marca ou um empreendimento. Um restaurante que carrega décadas de tradição, uma casa que guarda a memória de gerações ou um hotel que quer expressar a identidade de sua região dificilmente encontram isso pronto em uma sugestão automática.
Não se trata de rejeitar a tecnologia. Pelo contrário, ela é hoje uma aliada poderosa quando usada como ponto de partida, um gerador de ideias e referências que ajuda a destravar a criatividade e agilizar conversas iniciais entre cliente, arquiteto e fornecedor. O que não pode acontecer é transformar esse ponto de partida em ponto de chegada.
É aí que entra o olhar humano, treinado e sensível. O papel do arquiteto, do designer de interiores e de quem fabrica o mobiliário é justamente traduzir aquela sugestão inicial em algo que funcione de verdade: que respeite o corpo de quem vai usar, que resista ao tempo e ao uso intenso, e que, acima de tudo, continue contando a história de quem vive ou trabalha ali.
No setor moveleiro a inteligência artificial precisa ser vista como uma ferramenta que enriquece o processo criativo, mas que nunca substitui a curadoria humana. Cada peça desenvolvida deve passar pelo olhar técnico de quem entende de ergonomia, pela experiência de quem já testou dezenas de materiais em uso real e pela escuta atenta de quem quer entender a identidade por trás de cada projeto. É esse equilíbrio, entre tecnologia e sensibilidade, que transforma uma boa imagem em um ambiente que realmente faz sentido para quem vai vivê-lo.
A tecnologia pode, sim, abrir portas e inspirar novos caminhos. Mas a alma de um ambiente, aquilo que faz alguém se sentir em casa ou reconhecer sua marca em cada detalhe, ainda depende de mãos, olhos e experiência humana.
Tibeti Caviglioni Daniel é CEO da Mavie Móveis e executiva de marketing com mais de 20 anos de experiência em branding, comunicação e gestão estratégica. Atua no desenvolvimento de projetos que unem design, inovação e posicionamento de marcas, além de liderar iniciativas voltadas ao crescimento de empresas e no fortalecimento do empreendedorismo feminino.
Sobre a Mavie
A Mavie Móveis é uma marca brasileira de mobiliário para áreas internas e externas, com fábrica própria em Campinas (SP). Nascida da experiência de mais de 15 anos como fornecedora de móveis para alguns dos principais players do mercado nacional, a empresa lançou sua marca autoral em 2023, unindo design contemporâneo, produção artesanal, personalização e alta qualidade. Atende consumidores finais, arquitetos, designers de interiores, paisagistas e clientes corporativos em todo o Brasil, desenvolvendo soluções para residências, hotéis, restaurantes, condomínios, incorporadoras, clubes e empresas. Com fabricação própria, garantia de cinco anos e foco em conforto, durabilidade e excelência construtiva, a Mavie transforma ambientes por meio de móveis pensados para acompanhar os momentos e as necessidades únicas de cada cliente, materializadas em momentos que realmente importam.
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