Vivemos em uma sociedade que associa autoestima à beleza, ao corpo perfeito ou à imagem refletida no espelho. Mas, na prática clínica, percebo diariamente que a autoestima vai muito além da aparência.
É possível encontrar pessoas consideradas bonitas, bem-sucedidas e admiradas que convivem com um profundo sentimento de inadequação. Da mesma forma, há pessoas que não correspondem aos padrões estéticos impostos pela sociedade, mas possuem uma autoestima sólida e uma relação saudável consigo mesmas.
Isso acontece porque a autoestima não nasce no espelho. Ela nasce na forma como aprendemos a enxergar nosso próprio valor.
O que é autoestima?
Na psicologia, autoestima é a percepção que construímos sobre quem somos. É reconhecer nossas qualidades, aceitar nossas limitações e compreender que nosso valor não depende da aprovação, da performance ou da opinião dos outros.
Uma autoestima saudável permite que a pessoa:
estabeleça limites sem culpa;
tome decisões com mais segurança;
enfrente desafios sem acreditar que um erro define quem ela é;
cuide de si por amor, e não por obrigação;
desenvolva relações mais equilibradas.
Ela não significa sentir-se confiante o tempo todo, mas saber que, mesmo diante das dificuldades, continua sendo digna de respeito, cuidado e amor.
Quando a confiança esconde uma autoestima fragilizada
Nem sempre quem demonstra segurança realmente acredita no próprio valor.
Na clínica, observo pessoas que parecem extremamente confiantes, mas vivem presas à necessidade constante de reconhecimento. Precisam ser elogiadas, têm dificuldade em lidar com críticas e sentem que precisam provar o tempo todo que são competentes.
Muitas desenvolvem um perfeccionismo intenso, trabalham além dos próprios limites e nunca consideram suficiente aquilo que fazem.
Na Terapia do Esquema compreendemos que esses comportamentos costumam ser estratégias criadas para proteger feridas emocionais antigas. Em algum momento da vida, essas pessoas aprenderam que precisavam ser perfeitas, agradar ou alcançar resultados para serem aceitas.
Embora essas estratégias tenham ajudado no passado, acabam gerando ansiedade, esgotamento emocional e um sentimento constante de insuficiência.
Como a baixa autoestima aparece no dia a dia?
A baixa autoestima nem sempre se manifesta de forma evidente.
Ela pode aparecer em atitudes aparentemente comuns, como:
dificuldade em dizer "não";
culpa ao priorizar as próprias necessidades;
necessidade constante de agradar;
comparação frequente com outras pessoas;
medo de errar ou decepcionar;
dificuldade em reconhecer conquistas;
aceitação de relacionamentos que causam sofrimento.
Esses comportamentos geralmente refletem padrões emocionais construídos ao longo da história de vida e reforçados por experiências familiares, sociais e afetivas.
A aparência ajuda?
Cuidar da aparência pode, sim, contribuir para a autoestima.
Vestir-se de uma forma que represente sua identidade, cuidar da saúde, praticar atividade física e dedicar tempo ao autocuidado são atitudes importantes.
No entanto, existe uma diferença fundamental entre cuidar de si porque reconhece seu valor e cuidar de si apenas para conquistar aprovação.
Quando o cuidado é motivado apenas pelo medo da rejeição ou pela necessidade de aceitação, dificilmente produzirá uma autoestima consistente.
A verdadeira transformação acontece quando o cuidado externo é acompanhado de uma mudança interna.
A autoestima também passa pelo corpo
Como psicóloga especialista em regulação emocional, psicoterapia corporal e Terapia do Esquema, observo que nossas emoções também ficam registradas no corpo.
Uma postura encolhida, tensão muscular constante, dificuldade para respirar profundamente ou sensação permanente de alerta muitas vezes refletem uma história de sofrimento emocional.
Por isso, fortalecer a autoestima não envolve apenas mudar pensamentos, mas também aprender a reconhecer emoções, regular o corpo e transformar crenças profundas que sustentam sentimentos de desvalor.
Quando mente, emoções e corpo são cuidados de forma integrada, a pessoa desenvolve uma autoestima mais estável e menos dependente das circunstâncias.
A autoestima pode ser reconstruída
A boa notícia é que autoestima não é uma característica fixa.
Ela pode ser fortalecida em qualquer fase da vida.
A psicoterapia oferece um espaço seguro para compreender a origem dos padrões emocionais, ressignificar experiências dolorosas e construir uma relação mais saudável consigo mesmo.
Quando uma pessoa aprende que seu valor não depende da perfeição, da aparência ou da aprovação externa, ela deixa de viver tentando provar quem é e passa a viver com mais autenticidade, equilíbrio emocional e liberdade.
A verdadeira autoestima não está em parecer forte. Está em reconhecer o próprio valor, mesmo quando ninguém está olhando.
Elisa Maria Pereira
Coluna Psicologia
Psicóloga , Palestrante e Mentora de Casais Especialista em Dinâmica emocional e relacional @psi.elisape
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