Caso do cãozinho Orelha: a violência que não pode ser normalizada

Falar sobre o caso do cãozinho Orelha, que morreu após sofrer agressões na Praia Brava, em Florianópolis, é doloroso.

E talvez esse seja exatamente o ponto: não deveria ser fácil falar sobre isso, porque não é um fato qualquer.

Eu também tenho cachorro. E só de imaginar o que ele sentiu, a dor atravessa. Não existe justificativa aceitável para transformar o sofrimento de um ser indefeso em entretenimento.

Rir de um animal que está morrendo não é “brincadeira”. É crueldade. E crueldade não pode ser relativizada por idade, por impulsividade ou por “imaturidade”. Não importa se foi um adolescente ou um adulto: a gravidade do ato é a mesma Orelha não era um cachorro abandonado

É importante esclarecer: Orelha não era um cachorro simplesmente “solto”.

Ele era cuidado diariamente pela comunidade. Era conhecido na região, alimentado, acompanhado e acolhido.

Turistas tiravam fotos com ele. Ele fazia parte daquele lugar. Mas mesmo que fosse um cão em situação de rua, isso não muda o essencial: ninguém tem o direito de tirar a vida de um ser vivo.

Os vídeos chocam e precisam gerar indignação Os vídeos relacionados às agressões são estarrecedores. Eles evidenciam algo que ultrapassa a falta de empatia: expõem um tipo de violência que não deve ser ignorada, minimizada ou esquecida. Quando alguém agride um animal, a sociedade costuma tratar como um “caso isolado”.

Porém, há um alerta importante: diversos estudos e relatos de especialistas mostram que muitos adultos violentos iniciaram comportamentos agressivos ainda na infância e adolescência, atacando animais.

Ou seja: não é apenas um ato. É um sinal. A pergunta que fica é profunda e inquietante: o que existe dentro de uma pessoa que sente prazer em ferir quem não pode se defender?

O silêncio também é violência Outro ponto preocupante é o que acontece depois: não apenas o ato em si, mas o modo como a sociedade tenta lidar com ele. Muitas vezes, quem denuncia é atacado.

Quem expõe a verdade é silenciado. Quem expressa indignação é julgado. Mas é justamente o oposto do que precisamos. Se esse caso não tivesse ganhado repercussão, é provável que ele teria sido “engolido” pelo cotidiano.

E então, com o tempo, seria só mais uma crueldade invisível. E o invisível se repete. Saúde mental não combina com crueldade romantizada Falar sobre saúde mental é essencial.

Sempre foi. Mas é preciso ter coragem para afirmar: há situações em que o discurso não pode ser romantizado.

Porque quando um ser é violentado por diversão, isso deixa de ser apenas “um desequilíbrio emocional”. Isso revela falta de humanidade, de consciência e de responsabilidade social. Saúde mental é cuidar, é empatia, é presença, é controle emocional. Crueldade é escolha.

Quando o medo vira consequência Depois que o caso vem à tona, surge outro cenário: medo, fuga, tentativas de apagar rastros e esconder o rosto. É impossível não observar o contraste: o mesmo medo e ansiedade que agora tomam conta de quem cometeu esse ato, são sentimentos que o Orelha viveu em seus últimos momentos, sem chance de escolha.

Orelha foi sacrificado: não havia reversão Infelizmente, Orelha precisou ser sacrificado. As feridas eram graves demais. Não havia reversão.

E é impossível falar disso sem compreender que não foram apenas feridas físicas: houve feridas emocionais, feridas no corpo e na mente — e o mais doloroso é saber que ele não merecia absolutamente nada disso. Para que isso não se repita O caso do Orelha precisa ser um marco, não apenas uma tragédia. Porque quando uma sociedade normaliza a violência contra animais, ela abre espaço para violências maiores.

A crueldade contra o indefeso é a porta de entrada da indiferença — e a indiferença adoece uma comunidade inteira. Orelha não tinha voz. Mas nós temos. Que a história dele não seja esquecida.

Que a justiça não seja seletiva. E que nunca mais alguém ache que pode tirar a vida de um ser “por diversão”.

Texto por Marlete Plauth Terapeuta integrativa Instagram @marleteplauth